Fernando Galhano
Fernando Galhano
O acesso à água e a sua gestão, para além de revelarem figuras jurídicas, instituições e cargos que integram formas de direito consuetudinário, traduzem-se na utilização de uma grande diversidade de tecnologias que permitem as operações de rega. São estas o objecto dos Aparelhos de elevar a água de rega, que os autores dividem em três grupos fundamentais segundo a força motriz que os faz funcionar - os agentes naturais (vento e água), os animais e o homem -, subdividindo-os ainda segundo critérios morfológicos, questionando as suas origens e estabelecendo a sua distribuição no território nacional. O conjunto de tecnologias aqui descritas, ao mesmo tempo que permite ilustrar e formular questões no âmbito da organização técnica e social do trabalho, fala afinal ao leitor da sede de água que, nas sociedades camponesas, vive em simbiose com o elemento central das suas estratégias de reprodução social: a terra.
Actividades Agro-Marítimas em Portugal, de Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e Benjamim Pereira, descreve todo o conjunto de fainas a que se dedicavam, até há poucos anos, ao longo da costa do nosso país, determinados estratos das populações litorâneas, e que se relacionavam de forma directa com a agricultura, designadamente em vista ao aproveitamento dos elementos fertilizantes que o mar fornece. A obra divide-se em duas partes principais, a primeira das quais se refere à apanha do sargaço e a segunda à pesca do caranguejo pequeno em cardumes, actividades essas que, ou se foram tornando muito raras, ou se encontram hoje inteiramente extintas. Procedendo de diversos pontos de vista à descrição destas facetas pouco conhecidas da vida tradicional portuguesa, o presente volume reproduz a edição que o Centro de Estudos de Etnologia fez em 1975 deste mesmo trabalho, edição que se encontrava há largos anos fora do mercado e se torna assim de novo acessível ao público leitor.
Arquitectura Tradicional Portuguesa, de Ernesto Veiga de Oliveira e Fernando Galhano, reúne pela primeira vez um número considerável de pequenas monografias sobre a habitado regional, dispersas por várias revistas por vezes de difícil consulta, enquadrando-as por um texto estruturante que as inscreve no plano geral da arquitectura regional do País. Desse quadro global destacam-se duas categorias básicas: a casa de rés-do-chão e andar, e a casa terrea, correspondentes a outras tantas áreas geográficas fundamentais, Norte e Sul. A casa urbana apresenta-se também sob duas formas principais: a casa burguesa e mesteiral, vertical, esguia e alta, de função híbrida de residência-loja; e o palácio, de fachada larga, rés-do-chão e andar nobre, que repete em versáo citadina o solar rural. Em muitos casos essa arquitectura ficava á margem do conforto e concepção racional da orgânica doméstica; era um prolongamento da lavoura, em que esta importava mais do que as próprias pessoas. Porém, muitos aspectos e elementos dessa velha arquitectura constituíam soluções ajustadas, que poderiam adaptar-se, com plena razão funcional e estética, a novos conceitos habitacionais.
O presente ensaio sobre Construções Primitivas em Portugal, reedição de um volume publicado em 1969 pelo Centro de Estudos de Etnologia/lnstituto de Alta Cultura, visa estudar as formas mais simples de construção existentes no nosso país, as quais aproveitam em geral os materiais locais, segundo sistemas ou processos mais ou menos elaborados, mas de tipo arcaico e alheios a conceitos propriamente tecnicistas. O primitivismo dessas construções não significa, no entanto, que elas correspondam necessariamente aos níveis sociais inferiores, mas sim, designadamente nos casos mais característicos, a certas actividades particulares, por sua natureza rudes e duras: podem referir-se, como exemplos, os abrigos móveis dos pastores, que são um último reflexo de um passado de pastoreio seminómada; ou as casas de materiais vegetais dos pescadores, que evocam o litoral deserto dos períodos pioneiros do povoamento. Agora que a uniformização dos materiais industriais, a facilidade dos transportes e a divulgação de conceitos arquitectónicos racionais condenaram ao desaparecimento a memória desses peculiares processos de construir, tornava-se indispensável proceder à recolha dos elementos disponíveis sobre eles, não só para reter alguns elementos de conhecimento do Homem e da interpretação histórica da sua cultura, como ainda para recolher eventuais sugestões aproveitáveis e válidas, estética e funcionalmente, para a arquitectura de todos os tempos. Construções Primitivas em Portugal, que se encontrava esgotada há longo tempo, tem sido considerada uma das obras essenciais da etnologia portuguesa.
A possibilidade de conservar e acumular alimentos teve a maior importância na história do homem e da civilização humana. A variedade de processos de preservado e armazenamento relaciona-se com a própria diversidade dos produtos e é condicionada por razões climáticas das diferentes regiões. No Portugal húmido, que compreende as províncias do Entre Douro e Minho, o distrito de Aveiro, na Beira Litoral, o distrito de Vila Real, em Trás-os-Montes e a parte ocidental da Beira Alta, o complexo agrícola é dominado pelo milho, que se colhe em espiga e requer secagem e armazenagem conveniente. As unidades agrícolas dessa área integram instaladas adequadas a essa função - eiras, alpendres, sequeiras e espigueiros - que se revestem de urna enorme riqueza de formas, por vezes com motivos ornamentáis que parecem sublinhar a natureza sagrada do pão.